P/L e P/VP: como achar ações baratas na B3

Toda vez que uma ação despenca, aparece alguém dizendo que ela ficou barata. Mas barata em relação a quê? Uma ação de R$ 5 não é mais barata do que uma de R$ 50 — o preço nominal sozinho não diz nada sobre o valor real da empresa. Os indicadores que realmente respondem essa pergunta são o P/L e o P/VP, e é isso que este artigo vai destrinchar, com números reais do mercado agora em setembro de 2026.

O que é o P/L (Preço sobre Lucro)

O P/L mostra quantos anos de lucro, ao ritmo atual, seriam necessários para pagar o preço da ação. Ele é calculado dividindo o preço da ação pelo lucro por ação (LPA) dos últimos 12 meses.

Um P/L baixo pode indicar uma ação descontada, mas também pode ser um sinal de alerta: o mercado pode estar precificando uma queda futura no lucro, um risco setorial ou um problema específico da empresa. Um P/L alto, por outro lado, costuma refletir expectativa de crescimento — o investidor está disposto a pagar mais hoje por lucros maiores no futuro.

O que é o P/VP (Preço sobre Valor Patrimonial)

O P/VP compara o preço de mercado da ação com o valor patrimonial por ação (VPA) — ou seja, quanto a empresa vale no papel segundo seu balanço, dividido pelo número de ações. Quando o P/VP está abaixo de 1, a ação está sendo negociada por menos do que o patrimônio líquido da empresa; acima de 1, o mercado está pagando um ágio sobre esse patrimônio.

O P/VP funciona bem para avaliar bancos, seguradoras e empresas de setores mais pesados em ativos (energia, siderurgia, petróleo). Ele é menos útil para empresas de tecnologia ou serviços, cujo valor está mais em marca, software e capital intelectual do que em ativos físicos no balanço.

A fórmula de Graham: P/L x P/VP

Benjamin Graham, autor de O Investidor Inteligente e mentor de Warren Buffett, combinou os dois indicadores numa única régua: multiplicar o P/L pelo P/VP. Segundo sua metodologia, esse produto deveria ficar abaixo de 22,5 (o resultado de multiplicar o P/L máximo aceitável, 15, pelo P/VP máximo aceitável, 1,5) para uma ação ser considerada em patamar razoável de valuation.

Não é uma regra infalível — é um filtro inicial para reduzir uma lista grande de ações a um grupo que merece uma análise mais profunda.

Exemplo prático: comparando duas ações reais da B3

Para tornar isso concreto, vale comparar dois papéis com perfis bem diferentes, com dados de início de setembro de 2026.

Petrobras (PETR4) fechou em R$ 47,56 em 03/09/2026, segundo a BolsaData. Nesse preço, o papel apresentava P/L de 4,60, P/VPA de 1,27 e dividend yield de 7,69% nos últimos 12 meses. Multiplicando P/L por P/VP, chega-se a cerca de 5,8 — bem abaixo do teto de 22,5 de Graham. É um múltiplo típico de empresa de commodity, com lucro cíclico e alta distribuição de dividendos.

WEG (WEGE3), segundo dados da HG Brasil de julho de 2026, negociava com P/L de 30,59 e P/VP de 10,08 (esse último indicador varia um pouco conforme a fonte e a data de corte do balanço usado no cálculo). Multiplicando os dois, o resultado passa de 300 — muito acima do critério de Graham. Isso não significa que WEG seja uma má empresa; significa que o mercado já embute nesse preço uma expectativa de crescimento consistente nos próximos anos, historicamente sustentada pelos resultados da companhia.

O ponto não é dizer que PETR4 é melhor que WEGE3. É mostrar que os dois múltiplos, olhados junto, revelam qual parte da história de cada empresa já está precificada — se é o lucro presente (caso de PETR4) ou o crescimento futuro (caso de WEGE3).

Cuidados antes de usar P/L e P/VP sozinhos

  • Lucro não recorrente distorce o P/L: uma venda de ativo ou um evento contábil pontual pode inflar o lucro de um trimestre e derrubar artificialmente o P/L. Sempre olhe se o lucro vem da operação principal da empresa.
  • Setores cíclicos enganam: empresas de commodities (petróleo, mineração, siderurgia) costumam ter P/L baixo no topo do ciclo de preços e P/L alto (ou negativo) no fundo do ciclo — justamente o contrário do que a intuição sugere.
  • P/VP não serve para todo setor: bancos e empresas de capital intensivo se prestam bem à análise por patrimônio. Empresas de tecnologia, varejo digital ou serviços, nem tanto.
  • Múltiplo baixo não é sinônimo de barganha: compare sempre com a média histórica da própria empresa e com os pares do setor, não apenas com um número isolado.

Automatizando essa análise

Calcular P/L e P/VP de uma ação isolada é simples, mas comparar dezenas de ativos ao mesmo tempo, com dados sempre atualizados, é onde a automação entra. Uma planilha no Google Sheets conectada à API da brapi.dev consegue puxar preço, lucro por ação e valor patrimonial de qualquer ticker da B3 automaticamente, recalculando os múltiplos sem precisar visitar site por site.

Se você quer testar isso na prática, confira a planilha gratuita de análise de ações e FIIs aqui no blog.

Este conteúdo tem fins educativos e não constitui recomendação de investimento. Os dados citados podem mudar — sempre confira os números atuais antes de decidir. Considere consultar um profissional certificado para sua situação específica.